Pequena história dos periódicos de cinema no Brasil
Hernani Heffner
O Brasil conhece publicações textuais seriadas sobre cinema desde fins do século XIX. Com raras exceções, as mais estáveis sempre estiveram atreladas ao processo de comercialização de filmes. No início atuavam como instrumento publicitário direto dos setores de exibição e distribuição. Com o tempo, esta função pareceu se diluir em projetos editoriais mais “independentes”, com caráter mais “jornalístico”, ou ainda em ondas de “nostalgia” por um passado perdido do cinema. A grande maioria dos periódicos cinematográficos brasileiros, querendo cumprir uma função mais propriamente jornalística, crítica e mesmo política junto ao mercado e mais amplamente junto à sociedade, nunca alcançou maior estabilidade editorial, salvo também raríssimas exceções. Quase sempre iniciativas não empresariais, ligadas a determinados indivíduos, instituições ou pequenos grupos, demonstraram escasso fôlego financeiro, circulação deficiente e resposta mínima do público. Muitas cumpriram um papel prioritariamente ideológico, atuando nas lutas internas do meio cinematográfico. Esta primeira caracterização do universo dos periódicos de cinema brasileiros sugere dois grandes grupos: o das publicações de “mercado” e o das publicações de “cultura”. É uma aproximação vaga, maniqueísta e que provavelmente esconde nuances importantes, seja de ordem editorial, econômico-social ou histórica. Com formatos e processos gráficos diferenciados, indo do impresso à página virtual, apresentando-se como blog, folheto, boletim, fanzine, revista, jornal ou sítio, ou ainda posicionando-se como órgão de classe, técnico, informativo, cinefílico, ensaístico ou acadêmico, entre outros aspectos, o conjunto de publicações sobre cinema editadas no Brasil apresenta-se, na verdade, mal conhecido, minimamente preservado e pouquíssimo estudado. Forte e historicamente marcado por uma periodicidade irregular e por uma descontinuidade crônica, evidencia uma configuração estrutural onde a maioria dos títulos não alcançou o número 10, as tiragens máximas nunca ultrapassaram 100.000 exemplares, o preço médio sempre foi alto para a maioria da população e o projeto editorial definia-se grosso modo pela opção entre o cinema estrangeiro (quase sempre o estadunidense) e o cinema brasileiro, com raro equilíbrio entre ambos. No último quarto do século XX esta oposição, inclusive, se acentuou, como demonstra este comentário do articulista Maurício Stycer sobre a Cisco – Revista de Cinema: “continua ardentemente nacionalista – uma proposta um tanto quanto demodée nesta altura do campeonato” (sic) (Estado de São Paulo, 10/09/1987). O quadro maior só se alterou com o advento da web, onde a maior parte das informações e serviços editoriais oferecidos é gratuita, em geral os sítios dedicados ao cinema como entretenimento têm mais de 100.000 acesso/mês (os demais ficam abaixo desse número, de acordo com o Alexa) e as revistas eletrônicas de crítica, ensaísticas ou francamente acadêmicas não traçam mais fronteiras tão rígidas entre o exame da produção cinematográfica local e a estrangeira, entendendo-as como mutuamente imbricadas. Os primórdios No Brasil, a primeira “revista de cinema” de que se tem notícia surgiu em 1898 com o nome de Animatographo. Era o órgão de divulgação da sala de exibição do Salão de Novidades Paris no Rio, pertencente ao empresário Paschoal Segreto, primeiro produtor cinematográfico do país. Durou apenas quatro números. Como produto gráfico, antecipou a voga das publicações internas das casas exibidoras da chamada “bela época” (o Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro possui uma coleção referente a cinemas cariocas como Pathé, Palais, Avenida, etc.). Eram edições seriadas e gratuitas, geralmente indicando o filme em cartaz na semana e um resumo das próximas atrações. Diferiam do simples folheto, comum a partir da 1ª. Guerra Mundial, pela qualidade gráfica, mais próxima dos libretos, e pela presença de um desenho em estilo art-nouveau. Neste aspecto traíam sua fonte de influência, o similar francês, cujo formato e apresentação derivavam da voga do Film d’Art. De qualquer forma, muitas salas país à fora, mantiveram esta estratégia básica por décadas a fio, por vezes sofisticando-a momentaneamente, caso de Movie USA (depois Movies USA), revista distribuída no circuito Severiano Ribeiro na virada para os anos 1990. A prática foi incorporada à era das videolocadoras e permanece até a atualidade. A ausência inicial de uma revista em moldes tradicionais, isto é, noticiosa e não meramente informativa, publicitária e não meramente divulgadora, comentadora e não meramente descritiva, está a indicar o pouco interesse que produtores e exibidores, naturais investidores à esta altura, tinham pela alavancagem comercial de seus negócios, sobretudo no que tange à ampliação do mercado interno e ao filme brasileiro. Por volta de 1905 já tinham surgido as primeiras publicações duradouras nos Estados Unidos (Variety) e na França (Photo-Ciné-Gazette). Respondiam ao crescimento do mercado, ao impacto sócio-cultural do cinema e à expansão do negócio, inclusive além fronteiras. Entre nós, quanto ao segundo aspecto, haveria uma inserção do tópico cinema nas revistas mundanas mais famosas do momento, como Fon-Fon!, mas nada além disso. No exterior as novas publicações procuravam posicionar o empresário da área ou se colocar como importante instrumento de mediação entre o produtor e o público alvo. Quando ocorre por volta de 1911 o processo de separação entre distribuição e exibição, e a formação dos primeiros oligopólios internos, como a Companhia Cinematográfica Brasileira, que passam a trabalhar apenas com o filme estrangeiro, parece chegada a hora de incorporar a revista de cinema como instrumento acessório de uma economia cinematográfica periférica em desenvolvimento. Foi o que aconteceu em janeiro de 1913 com o lançamento da Revista Cinematographica, primeira publicação aparentemente independente a surgir no país, embora Adhemar Gonzaga tivesse deixado um comentário à margem do número 26 (17/07/1913), dizendo que pertencia aos “exhibidores”, leia-se à C.C.B. Apresentava-se como uma espécie de guia de programação das salas da cidade do Rio de Janeiro, informando um pouco mais substancialmente sobre o enredo dos filmes e fornecendo pequenos informes sobre o circuito. A capa já destacava algum intérprete conhecido, embora a revista carecesse de mais imagens. Em alguma medida lembrava modestamente a Motion Picture Magazine, a primeira publicação cinematográfica de fã, lançada nos Estados Unidos em 1910. A criação do famoso e influente produtor J. Stuart Blackton começaria a moldar o perfil interno deste tipo de impresso e também chamaria a atenção do mercado de imprensa quanto a este tipo de produto. Talvez ecoando os novos ventos, a primeira revista de cinema brasileira com perfil mais independente e informativo, sem o financiamento direto de uma firma do ramo, isto é, sem adquirir um papel pura e diretamente publicitário, parece ter sido Cinema, lançada no fim de 1913. Começou sendo editada em Paris, o que talvez traia alguma ligação com interesses comerciais franceses para com o Brasil, um mercado que estava sendo perdido para os filmes italianos e estadunidenses. De qualquer maneira, para sobreviver ao fantasma do número único, que assombrou boa parte das publicações nacionais da área, teve que trocar seu nome para Cine-Theatro, ampliando seus interesses e explorando também um assunto de maior penetração junto ao público. Se o Brasil não oferecia ainda uma condição favorável para esse tipo de publicação, seu mercado de exibição chamava a atenção de publicações estrangeiras como a estadunidense Cine Mundial, a francesa La Cinématographie Française, e as italianas Vita Cinematografica e La Cinematografia Italiana ed Estera, que publicavam sistematicamente notícias do mercado brasileiro na década de 10. Mesmo assim, nesse começo algo esquálido, surgem mais algumas iniciativas e duas linhas se salientam, demonstrando provavelmente a pouca penetração deste tipo de assunto junto ao público brasileiro, ainda muito “europeu” em seu trato com os meios culturais. Cine Revista, Revista dos Cinemas e O Cine eram como Caretas ou Fon-Fons! Cinematográficos: cheias de arabescos art-nouveau, charges, caricaturas, textos rápidos e visual chic. Pouco se aprofundavam na pauta principal. Pretendiam impor-se por um padrão gráfico e jornalístico já testado no mercado de imprensa e não conseguiram, até porque este padrão estava em vias de desaparecimento. Já a outra linha investia na estratégia usada em Cine-Theatro. Secundando-a temos Theatro e Film, Palcos e Telas e Telas e Ribaltas. Destas, Palcos e Telas conseguiu uma certa notoriedade e alguns anos de permanência na praça. Seu sucesso parece derivar da incorporação de elementos presentes das colunas cinematográficas dos grandes jornais, em vias de consolidação ao final da década de 10. Debitárias do material ofertado gratuitamente pelas distribuidoras estrangeiras que aqui se fixaram a partir de 1915, tais colunas os organizaram dentro de premissas um pouco mais jornalísticas, estabelecendo um tom entre a resenha e a crônica para divulgação de um cardápio cinematográfico agora essencialmente vindo dos Estados Unidos. Palcos e Telas, por vezes, aparentava um tom mais crítico, pois como iniciativa católica e preocupada com os liberalismos hollywoodianos queria circunscrevê-los a limites moralmente aceitáveis segundo uma doutrina bastante conservadora. Consolidação do mercado A primeira revista de cinema realmente popular editada no país se ateria simplesmente a reproduzir o material estrangeiro. De contribuição própria apenas o formato (o maior até então), o papel de boa qualidade e as cores (bicromia). Trata-se de A Scena Muda, lançada em 1921 e só encerrada em 1955. A estrutura, reproduzida em maior ou menor grau pelas sucessivas congêneres até os dias de hoje, era muito simples e extremamente funcional. Constava de uma página de fofocas, fotos de atores e atrizes e sinopses ilustradas dos filmes a estrear nas próximas semanas. Seu modelo imediato era a famosa Photoplay, lançada nos Estados Unidos em 1911. O segredo de uma e de outra foi o abandono paulatino do excessivo parnasianismo textual. O crescente poder dessas publicações para multiplicar a divulgação de um filme derivava de uma estrutura interna basicamente visual e do estímulo ao culto estelar. Isto forçou as companhias produtoras da Europa e dos Estados Unidos a constituírem departamentos de publicidade responsáveis pela sistemática produção de farto material iconográfico e noticioso. Foi a oferta gratuita contínua destes elementos a quem quisesse dispor deles que alavancou o mercado de imprensa cinematográfica em países como o Brasil que assumiram função periférica na economia cinematográfica mundial. O sucesso da básica e eficiente A Scena Muda também reflete a consolidação do espetáculo cinematográfico como lazer de massas, provavelmente o mais popular da década de 20 no país. Tal fenômeno começou a despertar a atenção das grandes casas editoras que, em geral, vinham dedicando espaços relativamente pequenos e inconstantes ao cinema em suas publicações. O temor quanto a uma revista exclusivamente cinematográfica talvez se explique pelo destino inglório de todos os títulos da década de 10. De qualquer forma, na virada para os anos 20, segue-se uma sistematização na cobertura na maioria das revistas regulares da época, e no caso de dois semanários mundanos em especial, uma crescente tomada de espaços pelo material cinematográfico, a ponto deles se tornarem praticamente revistas de cinema, durante algum tempo; trata-se de Para Todos… (editada por O Malho) e Selecta (editada por Fon-Fon!). Nestas duas publicações começa progressivamente a se insinuar uma concepção mais completa, abrangente e articulada de uma revista de cinema. São introduzidos editoriais específicos, matérias sobre outros assuntos além dos astros, seção de cartas e, pela primeira vez, uma seção permanente consagrada ao cinema brasileiro (primeiro em Selecta, depois em Para Todos...). As respectivas editoras, entretanto, resistiam em torná-las exclusivamente cinematográficas. Em função disto o corpo de redatores de Para Todos… começa a lutar por um novo veículo. Surge, em 1926, o primeiro marco do setor, a Cinearte. Embora em linhas gerais seguisse a fórmula de A Scena Muda, Cinearte ampliou consideravelmente o leque de assuntos normalmente cobertos por uma revista cinematográfica. Começou a falar de técnica, estética, cinema amador, cinema educativo, censura e muito mais. E, principalmente, começou a refletir sobre os fatos e a buscar soluções práticas, técnicas e conceituais para os diversos problemas enfrentados pela cinematografia brasileira. O êxito comercial de Cinearte ultrapassou de muito o de suas concorrentes, chegando a tiragens de 100.000 exemplares semanais no final dos anos 20, tornando-se uma espécie de modelo maior cuja repercussão pode ser sentida até hoje em periódicos tão diferentes quanto Cinemin ou Pipoca Moderna. O próprio binômio editorial representado por uma revista mais tipicamente de mercado e outra com algum engajamento político-cultural pode ser constatado em momentos tão distintos quanto os anos 50 – Cinelândia e Filmelândia; a própria A Cena Muda, em outra fase editorial, e Jornal do Cinema –, ou os anos 80 – Set e Cinemin –, ou ainda o início do século XXI – Revista de Cinema e Filme Cultura –, sempre sobressaindo a segunda formulação. Hoje é consenso entre os pesquisadores e historiadores que Cinearte representa a primeira grande inflexão ideológica do pensamento cinematográfico brasileiro, instaurando e defendendo o discurso a favor da industrialização do setor. Houve outras propostas editoriais na década de 20 como o tablóide A Tela, a mitológica A Fita de Amador Santelmo (ninguém viu, embora haja citações dela, precursora do reconhecimento da condição marginal do cinema brasileiro), a sofisticada Artes & Artistas, a luxuosa Frou-Frou, e o primeiro periódico dedicado inteiramente à discussão estética: O Fan, órgão impresso do cineclube Chaplin Club. A amplitude de estratégias parece refletir a crescente diversificação do mercado de impressos, assim como uma complexificação do próprio campo cinematográfico. Busca-se um público com maior poder aquisitivo, eventualmente regionalizado – o primeiro título era editado no Rio Grande do Sul e o terceiro na Bahia, os demais, como sempre no Rio de Janeiro –, e cada vez mais cinéfilo, espelhando a formação de uma cultura cinematográfica local de grande envergadura intelectual. O Fan traduzia a percepção do cinema como uma forma de expressão sofisticada e autônoma, concorrendo ainda para a sustentação pública de iniciativas criativas, como a do filme Limite, dirigido por Mário Peixoto. Funda a outra grande inflexão ideológica encontrada em certa linhagem de periódicos de cinema, a saber, a defesa do meio como arte. Quase todas essas revistas não veriam a década seguinte. Aliás, a chegada do som, antecipada pelo rádio, que se reestruturava no começo dos anos 30, e sacramentada pelo cinema sonoro, traria modificações na estrutura das revistas que conseguiram vencer este obstáculo, basicamente Cinearte e A Scena Muda. Desapareciam progressivamente as sinopses ilustradas ainda apresentadas na tradição do folhetim popular do século XIX e avultavam as reportagens com astros e os detalhes inusitados que cercavam determinadas produções. As novas publicações para fãs, contraditoriamente cada vez em menor número, já que o mercado exibidor e o público continuavam a crescer, trataram de incorporar a novidade do momento, como a Rádio-Cine-Theatro e o Cine-Rádio-Jornal. Um dos motivos para o refluxo parece residir na definitiva formalização de espaços cinematográficos na grande imprensa, particularmente a crítica diária, institucionalizada e consagrada ao final da década. Um e outro aspecto explicariam a longevidade de A Scena Muda, que alterou suas sinopses para “cine-romances”, mudando o tom melodramático dos textos para uma chave mais próxima da radionovelização contemporânea, e incorporou em sua década final um modelo mais informativo e crítico em suas matérias. Mudança de rumos A escassez de títulos e uma possível queda de vendagem por volta dos anos 1930 gerou um fenômeno coetâneo interessante: a proliferação de house organs de distribuidoras estrangeiras e de revistas destinadas a exibidores. Todos os dois tipos duraram décadas, sendo que o primeiro surgiu a rigor no início dos anos 20 com a Revista Universal e se encerrou com o Pandora Press nos anos 90, e o segundo em meados dos 30 com Cine Magazine e Cine Repórter, prosseguindo até os anos 70 com títulos como O Exibidor e Projeção. Esse prenúncio de crescente especialização foi se aprofundando. A década de 40, de fato, não foi boa para o setor. Mesmo assim, conheceu a primeira publicação inteiramente dedicada ao cinema nacional, Cinema Brasileiro, que parece não ter ultrapassado o no. 1. Apareceu Celebridades, também efêmera. E tentou-se novamente uma revista de discussão estética, Filme, que durou apenas dois números, embora fosse uma iniciativa do poeta Vinícius de Moraes e do crítico Alex Viany. Ao final da década, com Cinearte já desaparecida e A Scena Muda perto do final, as editoras decidem investir numa linha mais popularesca, explorando os estertores do star-system clássico e a aproximação a novos meios da nascente indústria cultural brasileira. Temos então no primeiro grupo: Cinemin (em sua série inicial), Cinelândia, Filmelândia e as diversas “fãs”: Cine-Fan-Magazine, Tela-Fã, etc. Paralelamente aflorou a voga da quadrinização e da fotonovelização de filmes, com Aí Mocinho (westerns quadrinizados), Cinemin quadrinizada (biografia de artistas), Superscope e Cinemascope (filmes em geral) recaindo no primeiro grupo, e a série que os recontava com fotos e balões de texto se apresentando em Cine Aventuras, Super Aventuras, Cine Revelação, Cine Romance, Hollywood Cine Ilustrada, Foto-Aventuras, Foto-West, etc. Na passagem aos anos 1950, diante de um mercado tão pouco acolhedor, acontece a transferência para as revistas ditas culturais de boa parte da discussão sobre os rumos do cinema em geral e do brasileiro em particular. Títulos como Fundamentos, Anhembi e, mais tarde, Revista Civilização Brasileira, entre outros, ressoam mais fortemente a pauta do momento, em que pese tentativas do segmento como o Jornal do Cinema, que apresentava uma postura mais informativa e crítica do que suas congêneres. O crescente esgotamento do filão popular abre espaço para novas tentativas não muito duradouras, das quais as mais significativas por seu viés estético são as mineiras Revista de Cinema, primeira publicação de teoria e crítica moderna do país, e Revista de Cultura Cinematográfica, esta de inspiração católica, e as paulistas Seqüência e Delírio, a primeira iniciativa do futuro cineasta Luís Sérgio Person, com a participação de nomes de peso como Francisco Luís de Almeida Salles e Paulo Emílio Salles Gomes, além de um jovem entusiasta chamado Eduardo Coutinho, e a segunda capitaneada por Rudá de Andrade, Jean-Claude Bernardet e Gustavo Dahl, funcionários da então Fundação Cinemateca Brasileira. Destas apenas a Revista de Cinema teve uma brevíssima e barulhenta revivescência nos anos 60. Praticamente todos os títulos que se conheciam de momentos anteriores desaparecem na virada para os anos 60. O período que se abre em seguida, apesar de ser um dos mais efervescentes e criativos de obras, idéias e textos cinematográficos, conhece um dos mais áridos momentos em termos de publicações para o setor. Certamente o estigma da revista de fã afugenta os autores para espaços mais amplos, efetivos e nobres na grande imprensa ou nos periódicos de grande prestígio cultural. Ocorre também em paralelo a reestruturação do mercado de imprensa, o fim do classicismo cinematográfico e a transformação do circuito exibidor, que passa a atrair um público cada vez mais ligado à classe média. Sem esquecer o peso da ditadura militar que se instaura, faz-se o elogio da especificidade nas mais diversas áreas do conhecimento e a época passa a conhecer publicações vindas de setores muito particulares como as cinematecas e os cineclubes, entrando na seara também edições oriundas de órgãos públicos como o Geicine, todas igualmente efêmeras. De novo e relevante apenas Filme Cultura, que apesar de financiada pelo Estado, começa como revista de “alta cultura”, discutindo basicamente o cinema estrangeiro. Em que pese diversas fases editoriais e formatos gráficos, além da periodicidade irregular, com direito a longas lacunas, firma-se afinal a partir dos anos 80 como o mais longo e importante título da atualidade. A queda da freqüência de público nos cinemas, devido ao envelhecimento do circuito, ao cardápio mais atrevido da programação e ao crescimento da TV, continua a impedir qualquer projeto editorial mais sólido nos anos 70. O fenômeno da especialização prossegue com o surgimento de revistas técnicas como Imagem e Comunicação, publicada pela Kodak e com informações sobre seus produtos, e de títulos com a preocupação de resgatar a dimensão histórica da atividade cinematográfica no Brasil, como Boletim do Centro de Pesquisadores do Cinema Brasileiro. Mesmo assim como que três novas linhas se apresentam nesse contexto: as revistas ligadas ao filão erótico de produção cinematográfica da Boca do Lixo; as tentativas de cineastas consagrados de construir um canal de comunicação com o grande público; e as publicações interessadas em formas de cinema não dominantes no período. No primeiro grupo temos as bem sucedidas comercialmente Cinema em Close-Up, SB Cinema e Fiesta Cinema, todas procurando construir uma relação com os leitores a partir da similaridade gráfica com a revista masculina da época e da proposição de um star-system nacional para o gênero. No segundo se colocam iniciativas como a Luz & Ação original, que acabou não sendo lançada de fato, e a Cinema BR. Os envolvidos no primeiro caso eram realizadores como Nelson Pereira dos Santos, Carlos Diegues, Joaquim Pedro de Andrade e Walter Lima Jr, entre outros, e no segundo Denoy de Oliveira, Leon Hirszman, Sylvio Back e João Batista de Andrade, entre outros. Os nomes traem interesses que orbitariam em torno da Embrafilme e que se expressavam assim no editorial de Luz & Ação: “Não estamos dispostos a conviver pacificamente com o silêncio preguiçoso e as agressões suspeitas que se sucedem contra nossos filmes. Não estamos mais dispostos a tolerar a leucemia mental que ameaça a cultura brasileira” (Veja, 22/08/1973). O terceiro segmento produtor a se apropriar do espaço editorial impresso, era menos coeso e mais anárquico, inserindo-se na chamada imprensa “nanica” e abrangendo desde os superoitistas, que publicaram Super 8 & Quadrinhos, os curta metragistas, que publicaram Cinemação, e os “marginais”, que publicaram Cine Olho. Como se autodefiniu Cinema Livre, uma publicação tardia, inserida neste mesmo universo e criada por uma nova geração rebelde baiana capitaneada por Edgar Navarro, eram todos “panfletos kinéticos pós-novos” (Jornal da Bahia, 22/03/1986). Novos tempos O que marca as últimas décadas em termos de publicações sobre cinema é que se pode denominar de videomania. Com efeito, a explosão do mercado de vídeo, primeiro com o VHS e depois com o DVD, leva à criação de dezenas de periódicos, que por vezes lembram as revistas de cinema dos primeiros tempos, em seu afã de mero informar o que ia pelas salas/locadoras. Títulos pioneiros e longevos como o Jornal do Vídeo, criado em 1985, têm o mesmo formato, projeto gráfico e linha editorial do primitivo Variety. Recupera-se assim a função de intermediação entre produtor estrangeiro e mercado local estabelecida décadas antes pelos interesses dominantes na área. Por vezes surgem iniciativas independentes, como o Jornal do Vídeo Club ou o Ponto de Vídeo, ligados a locadoras ou grupos de consumidores. Mas a grande maioria assume a configuração de um guia de vendas junto ao novo circuito de exploração fílmica. A ampliação das janelas de mercado e a recomercialização de obras do passado nesses novos suportes propiciou um retorno da revista de fã, destacando-se uma nova publicação chamada Set e mais uma série da clássica Cinemin. Houve também muitas publicações artesanais e o fenômeno dos fanzines. Define-se mais uma vez uma produção editorial alternativa, algo descentralizada geograficamente e com recortes de interesse mais centrados no cinema brasileiro e no cinema de arte. Revistas como a gaúcha Moviola e a goiana Cisco e os tablóides cariocas Cine Imaginário e Tabu preenchem mais significativamente os parcos espaços em meio à grave crise econômica dos anos 80 e ao desmonte das formas de produção cinematográfica até então existentes. Sobressaem também publicações que revelam a crescente inclinação das linhas editoriais para o nicho universitário como a Cadernos de Pesquisa e a Cadernos de Crítica, mas ainda produzidas dentro do movimento de resgate e fixação da memória longínqua ou recente das práticas fílmicas brasileiras, e com subsídio do Estado e não da Universidade. Marco neste sentido foi a edição de Imagens, lançada pela Universidade de Campinas já nos anos 90. Com proposição teórica e estritamente acadêmica, foi a publicação mais cara do meio em toda a sua história, com custo médio de 30 mil dólares estadunidenses por número. Sem foco tão dirigido, os artigos e ensaios acadêmicos sobre cinema se generalizariam nas revistas universitárias brasileiras a partir da segunda metade da década, tornando-se comuns a partir do advento mais amplo da internet no século XXI. Nos últimos 20 anos continuaram a aparecer um grande número de títulos ligados à cinema, vídeo, televisão e outras formas de imagem em movimento. De uma maneira geral o leque espelha as diversas tendências editoriais anteriormente esboçadas, com uma leve acentuação na especialização, sobretudo técnica neste momento, certamente devido à introdução dos equipamentos e técnicas digitais. Publicações como Luz & Cena, Produção Profissional e Backstage dão conta de uma atualização tecnológica ainda em processo em vários campos técnicos. Há, inclusive, uma derivação curiosa deste setor para um universo de publicações voltadas para o consumo doméstico desses aparatos, sobressaindo-se revistas como a Home Theater e similares. Deve-se mencionar ainda fenômenos incomuns como o interesse pelo entroncamento do mercado de cinema e televisão, pela exploração dos novos mecanismos de financiamento audiovisual e pelo conhecimento mais detalhado e econômico do mercado de cinema, expressos por títulos como Tela Viva, Marketing cultural e Filme B. Restam poucas revistas de perfil mais geral e jornalístico, como Revista de Cinema e Plano B (atualmente denominada Beta). Embora sem a mesma estabilidade e fôlego, um outro nicho demonstrou certo vigor no período, o das revistas impressas e virtuais com perfil de análise crítica e estética de alto nível, muitas guardando intermediações com a academia. Nunca antes um tão grande número de títulos se apresentou e sua presença se alongou para além do funesto único número. A insistência estaria a indicar a necessidade de renovação dos quadros da crítica e do pensamento sobre cinema no Brasil e a defesa de uma nova expressão artística, frente a formulações já caducas ou sem maiores pretensões. A grande maioria dessas publicações assumiu tom militante e foi desenvolvida por gerações bem jovens. Os títulos impressos parecem mais comedidos e táticos, circunscrevendo claramente seus interesses, destacando-se iniciativas como Cinema, Cinemais, Coisas de Cinema, Sessões do Imaginário, Sinopse, Teorema, Paisà, Taturana e Juliette, algumas já descontinuadas ou prolongadas apenas em versão on-line. Quanto às revistas propriamente eletrônicas, é um fenômeno ainda em maturação, sendo impossível no momento dimensioná-lo completamente (uma lista inicial de sítios pode ser obtida em www.olhoslivres.com.br). Situando minimamente a passagem ao novo suporte, coube o pionerismo ao antigo editor de Cinemin, o jornalista Fernando Albagli, que tentava retomar o espírito desta publicação, lançando em 1995 a eletrônica Cinetronics. Para acessá-la era preciso um computador IBM-PC com modem, uma linha telefônica (com terminal ANSI e parâmetro de comunicação 8N1) e o pagamento de uma taxa. Estávamos em tempos pré-web, funcionando a iniciativa via BBS. No ano seguinte a revista já ficou hospedada no endereço virtual do Grupo Estação Botafogo (http://www.estacao.ignet.com.br), mas logo foi descontinuada, surgindo em seu lugar a versão eletrônica de Tabu, que também não durou muito tempo. Em 1998 surge Contracampo (www.contracampo.com.br) o grande marco histórico neste campo das revistas eletrônicas brasileiras de cinema, ao desenhar os primeiros contornos deste tipo de veículo em termos de web design e de linha editorial, voltada para uma redefinição do papel da crítica em meio ao setor. Alguns anos depois surgiriam novas revistas, como a Cinética (www.revistacinetica.com.br), assim como desdobramentos mais típicos ao novo universo como grupos de discussão, grupos de pesquisa, sítios, blogs, twitters e outras formas de jornalismo e comunicação. Esboço de Cronologia da Revistas Cinematográficas 1898 Animatographo 1913 Revista Cinematographica Cinema, depois Cine-Theatro 1914 Selecta (predominantemente de cinema a partir de 1920) 1917 Theatro e Film Revista dos Cinemas 1918 Palcos e Telas A Fita Para Todos… (idem a partir de 1920) 1919 Cinema Cine Revista 1920 A Tela Artes e Artistas O Cine 1921 A Scena Muda Telas e Ribaltas A Fita Helios 1922 Revista Universal 1924 Foto-Film 1926 Cinearte 1927 Cinema A Tela O Exhibidor Cine Modearte 1928 O Fan 1929 Cinema e Film Cine (Revista Cinematographica Social) 1930 Fan Magazine 1932 Filmundo 1933 O Filme Imagem Cine Magazine Arco Íris 1934 Cine Repórter 1935 Cine Revista 1936 Fan Magazine 1937 Rádio-Cine-Theatro Revista do Exhibidor 1938 Cine-Rádio-Jornal 1939 Boletim do Sindicato dos Técnicos de Cinema 1940 Cinema Brasileiro 1943 Cine Revista: Revista dos Cinemas 1946 Constelação Celebridades O Cinema Moderno 1947 Hollywood Cine Ilustrada Íris: Revista Brasileira de Foto, Cinema e Artes Gráficas 1949 Radar Filme Aí Mocinho (9 séries até 1986) 1950 Televisão: Suplemento de Cinema Interfilmes Cine Revista: Revista dos Cinemas Revista do Cine Amador 1951 Aster: cinema, teatro, rádio, música Jornal do Cinema Star Album Cine Lar A Notícia Cinematográfica Foco: Revista de Cinema, Teatro e Rádio 1952 Cinelândia, depois Cine-TV-Lândia Cinegrama Cinemin 1954 Filmelândia O Exibidor Revista de Cinema 1955 Cinemascope 55 Cine-Fan-Magazine 1956 Seqüência Cine-Revelação Filmagem Organização Rank 1957 Cinemateca: Boletim Mensal de Cinema Revista de Cultura Cinematográfica Curumin Resenha Star Album (2ª. série) 1958 Boletim mensal de Cinema Cinema Nacional em Revista Revista de Filmes em Cinemascope 55 1959 Projeção Cinemateca Sétima Arte Magazine 1960 Delírio: Revista de Cinema Cine-Clube Claquete Revista UPC Sétima Arte Superaventuras Foto-Aventuras 1961 Revista de Cinema (2ª. série) Revista do Geicine Revista da Tela Cine Clube Tirol A Tela Ilustrada 1962 Cadernos da Cinemateca A Tela-Fã Star Studio Foto-West Fototese: fotografia, cinema, ótica 1963 Revista Semanal de Cinema 1964 Cinema Íntimo 1965 Boletim da Sociedade de Amigos da Cinemateca Cine-Clube Cinema Novo Jornal de Cinema 1966 Filme Cultura Cinema em Debate Filme Cadernos da Cinemateca Filme 66 Novo Cinema 1967 Cinema 67 1968 Cinéfilo Grande Angular: Informativo de Cinema 1970 Boletim de Pesquisadores do Cinema Brasileiro 1971 Cadernos de Cinema, Teatro, Rádio & TV 1972 Boletim Informativo SIP Tela 1973 Cinema SB – Salão de Barbeiro Cinema Luz & Ação 1974 Cinegrafia: Revista de Cinema Cinegrafia Ensaio Metacinema: Estilhaço de Implosão Fílmica 1975 Cinema em Close-Up O Assunto é Cinema 1976 Cine Olho Tela 1977 Cine-Debate Amostragem Cinema BR Cartaz Fiesta Cinema Super 8 & Quadrinhos 1978 Ganga Bruta Montagem Agacine Atualidades Cinemação Jornal ARES O Refletor 1979 Malvina Cruela (depois Jornal de Cinema) 1980 Cinejornal 1981 Luz & Ação Jornal da Tela 1982 Cineasta Cinemin (2ª. série) O Gerente Boletim Informativo da Federação de Cineclubes do Rio de Janeiro 1983 Jornal do Cinema Cinema Livre Moviola Cinematografos Revista de Cinema Video News Video Home Jornal 1984 Cine Brasil Cadernos de Pesquisa Cena Erótica OCIC Brasil Notícias Cinema Livre 1985 Cisco: Revista de Cinema Cine Imaginário Home Video: ABVEC News Jornal da Globo Vídeo Jornal do Vídeo Opção Cultural Video Home Jornal Vídeo Popular Jornal do Vídeo Clube 1986 Cadernos de Pesquisa (2ª. série) Jornal do Cinema (2ª. série) Caderno de Crítica Última Cena Cinevídeo: A Revista de Cinema e Vídeo Tabu: Cinema e Vídeo Mocinhos e Bandidos Première 1987 SET: Cinema & Vídeo Vide Vídeo Vídeo Press Espectador: Vídeo Fotogramas & Vídeo Imagemovimento Shopping Vídeo Lançamentos Video Business Guia do Vídeo Video Times Vidicon 1988 OPHAN Magazine Producine Set Vídeo São Paulo 1989 Movie USA Ação – Informativo do Departamento de Cinema da Kodak Imagem: Tecnologia – Educação 1990 Vídeomania Último Rolo: Informativo do Cineduc Notícias UBV Ponto de Vídeo Trippé 1991 Caramelo Paupéria Cadernos Cineamericanidad Video Review Video Magazine 1992 Cinémas d’Amérique Latine Tela Viva Kannal: a Revista de Quem tem Videocassete Kannal: a Revista de sua Locadora Movie Market Magazine 1993 Cine-Fanzine Informe Cineduc 1994 Quadro a Quadro Cine SP Cinema Claro Imagens Home Video Coisa de Cinema Pay TV Vídeo Pop Portal Cine 1995 Glauberianas Home Video Revista Eletrônica Cinetronics Fan-Cine 1996 Cinema Pandora Press Cinemais: Revista de Cinema e Questões Audiovisuais Video List Video Maker Ver Video Home Theater: Áudio e Vídeo em sua Casa Sessões do Imaginário Revista Eletrônica Tabu 1997 Cine Academia Marketing Cultural Balalaica: Revista Brasileira de Cinema e Cultura Artigo de Cinema 7a. Arte Matinê Informativo ABD-SP Sci-Fi News Idéia na Cabeça 1998 Filme B Informa Moviola Estudos de Cinema Sinopse Revista Eletrônica Contracampo A Tela Demoníaca Graphic Cine Vídeo Clip Luz & Cena Broadcasting & Production 1999 Making Of Kinema Trailer Video Zoom Magazine 2000 Revista de Cinema DVD Video Business Series, TV e Cinema 2001 Filme B Cine 8 de Papel DVD News DVD Premium Set Especial 2002 Teorema Produção Profissional Mídia Viva O Cinema Está Aqui 2003 Cine Santander Cultural Salas de TV DVD Audio & Video Magazine 2004 Devires: Cinema e Humanidades 2005 Produção Profissional Cine 2006 Revista Eletrônica Cinética: Cinema e Crítica Folha do Cinema Amazonense Programadora Brasil Paisà: Cinema Cultura Comportamento 2007 Reserva Cultural Domínios da Imagem 2008 Plano B, depois Beta Milímetro: Revista de Audiovisual Capixaba Taturana Juliette Revista de Cinema 2009 Preview Movie Sem data precisa Mais ou menos déc. 20 Foto-Cine Mais ou menos déc. 40 Foto-Cine-Boletim O Rugido do Leão Mais ou menos déc. 50 Revista do Exhibidor Jornal do Exhibidor Cinema – Tudo para o Exhibidor Superscope Cine Aventuras Paramount em Ação Cine Album Cine Romance Foto-Cine-Som Cine Mignon A Torre de Marfim A Voz do Cinema Mais ou menos déc. 60 Cinema Cinema Moderno Colt 45 Mais ou menos déc. 70 Cine Kodak News Imagem & Comunicação Borrão de Cinema Boletim Informativo de Assuntos do Cinema Nacional Caderno de Cinema Momento Fuji Mais ou menos déc. 80 Contra Informação Informativo Cultural Caderno de Cinema Mais ou menos déc. 90 Tom Zine Revista PlayArte SET – Sociedade Brasileira de Engenharia de Televisão Mais ou menos déc. 00 Revista Vídeo em Casa Brazilian Cinema Game Vídeo Pipoca Moderna